quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O Mar

Ela decidiu fazer suas caminhadas matinais pela praça do centro da cidade do litoral.
Por estar sozinha, colocou seus fones de ouvido para tentar fugir da realidade.
Quando finalmente chegou a areia da praia, decidiu tirar os fones para sentir o som das ondas do mar. O som a consumiu de tal forma que ela deixou sua caminhada para outro dia, tendo assim a oportunidade de se sentar na areia e admirar o mar.
Pelos minutos que ficou ali, ela sentiu a brisa refrescante e o som calmo do mar. Eram duas coisas diferentes, porém combinavam perfeitamente.
Ela reparou que as ondas somente existem por causa do vento, sem ele, seriam apenas litros de água salgada.
Ela achou incrível como até mesmo as coisas simples dependem umas das outras.
Enfim, ela tomou conta da necessidade que tinha sas outras pessoas, então colocou de volta seus fones de ouvido e voltou para sua casa, de onde ela procurou aqueles rostos que acreditavam estarem perdidos.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Batom Vermelho

Somente uma manhã de verão na cidade paulistana, um dia normal.
Ela se levantou, deixou de lado os lençóis vestiu os chinelos e foi ao banheiro.
Ao passar pela frente do espelho, ela se deparou com a imagem de uma pessoa ao qual ela desconhecia a origem. Bastou passar a mão sobre sua testa para perceber que se tratava de sua face refletida na parede por meio de um espelho.
Ela percebeu como havia mudado, seus lábios haviam se tornado mais carnudos, seu rosto afinado e seu corpo havia tomado forma. Ela não era mais a mesma.
Seu susto fora tão grande que suas pernas amoleceram por alguns segundos. Ao se recompor, ela sentiu uma enorme nostalgia de sua infância, onde ela poderia correr descalça pela grama sem se preocupar com as unhas de seus pés. Ela se lembrou das promessas que fazia para as estrelas, que seria uma mulher independente, sem precisar dar ouvidos para as palavras jogadas ao vento. Ela olhou em sua volta e achou patética a cena de chorar sentada ao vaso do banheiro choramingando pela vida que não havia planejado.
Novamente, ela se olhou no espelho e enxergou uma mulher que deseja sair e correr atrás da tão sonhada independência. Ela decidiu não se precipitar e aproveitar a juventude que tem, assim mesmo: dependendo de seus pais mas aprendendo e treinando sua independência futura.
Ela abriu a gaveta do gabinete do banheiro, passou aquele ousado batom vermelho, trocou de roupa e escondeu seus olhos por um par de óculos escuros. Pegou seus fones de ouvido e foi de encontro à sua tão sonhada liberdade.

sábado, 6 de setembro de 2008

Dama da Morte


Entre seus olhos furiosos e sua feição amorosa, és tu tão bela querida Morte.

Seu sorrisome atrai, seus longos cabelos me encantam e sua pele macia me convida.

És tu, dama da paz, que me levará numa barca de esperança ao lugar que tanto espero.

És tu bela dama, que me levará a quem me deixou neste mundo dominado pelo egoísmo.

És tu rainha do início que me levará de volta d'onde eu vim, d'onde formei meus sonhos, na esperança que se realizassem neste lugar farto de cores eufemistas que tentam me iludir. Mas já abri meus olhos.

Quero voltar, dama de negro, ao seu lado, d'onde essa criatura não deveria ter saído.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

As Frias Flores do Inverno


Era uma gelada manhã de inverno e ela acabara de se levantar.
Calçou os chinelos e desceu para a cozinha para tomar café. Após a refeição ela se sentou no sofá para ver o que passava na TV.
Cansada de mudar de canal constantemente, ela abriu a janela da sala que dava de frente para a rua e percebeu que as pessoas lá fora se divertiam com seus sorrisos calorosos e cachecóis compridos que encostavam o chão.
Ela subiu para seu quarto, abriu o guarda roupas e tirou o primeiro casaco que havia por lá. Sentou-se na cama e vestiu suas longas botas de inverno. Ao se levantar, ela colocou suas mãos delicadas por dentro dos bolsos e encontrou uma carta.
Ela não sabia a origem da carta, somente sabia que estava lá. Curiosa, abriu o papel enquanto descia pelas escadas.
Um vento forte sopra e leva de carona o pequeno pedaço de papel, fazendo-o cair na calçada molhada pela noite urbana.
Ela saiu correndo em direção à carta e ao encontro ao pequeno papel.
Assim que ela o pegou na mão, percebeu que era tarde demais para ler a mensagem, pois a tinta havia borrado tornando a mensagem praticamente ilegível.
Após voltar para casa, ela observou o papel novamente, agora mais seco. Por entre os borrões de tinta ela observou as palavras “Sinto muito”.
Desconfiada, ela pegou o telefone e ligou para a amiga que ela não via por dias por culpa da mágoa. Depois de uma longa conversa pelo telefone, ela percebeu que se tratava de uma carta de desculpas, as palavras inúteis haviam sido apagadas pela água, restando somente as palavras que realmente importavam.
Ela sorriu, pegou as chaves e foi de encontro com as pequenas flores que resistiam naquele inverno gelado.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Ela e a Natureza



Sentada na grama ela teve a visita do vento que cochichou em seu ouvido as palavras mais belas. A brisa bagunçou seus cabelos e os raios solares aqueceram sua face límpida.
A sombra que a protegia era devida as árvores que sonhavam em alcançar o céu. E foi lá mesmo, naquela grama molhada que ela adormeceu.
Ela teve sonhos terríveis, dignos de um filme de horror. Ao acordar, ela estava com o rosto soado, devido o sofrimento.
De inicio, ela teve receio em abrir os olhos, mas bastou levantar suas pálpebras para perceber os raios do sol em meio de um crepúsculo que escapavam pelos galhos das árvores. Por ser uma típica tarde de verão, o fim de tarde cedeu à garoa fina.
Mas ela decidiu ficar ali mesmo, e ser banhada pelas gotas que pingavam do céu e molhava seus pés. Mesmo que muitos a chamem de louca, ela ficou ali, em companhia com a garoa da estação.
Ao escurecer, ela voltou para casa, subiu as escadas e foi ao seu quarto, deitando em sua cama e indo de encontro ao sono, num lugar onde não havia nada além do teto.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Flores Mortas

Andei por entre quartos escuros, quartos que se escondiam do mundo real, quartos por onde não se ouviam muitos passos.
Lentamente, me aproximei do interruptor para que me fornecessem luz. A escuridão se fora, deixando para trás uma imagem deplorável. Um quarto que antes fora o mais resplandecente cômodo da moradia, hoje não passara de um simples porão soterrado por lembranças.
Pelo chão, flores em vasos decorados pelas teias de aranhas e vestidos num manto de pó. Flores podres mal cheirosas que antes foram a mais apreciada decoração da casa. Flores que antes custavam uma fortuna, hoje não passam de restos mortais de uma beleza vivida num jarro de porcelana.
O quarto tinha cheiro de passado, onde lembranças de outras vidas possuíram minha mente, fazendo-me sentir calafrios onde minha espinha tremia e gemiam meus dedos de frio.
Levei minha mão de encontro com a maçaneta e fechei aquela porta que chorou com o adeus ás lembranças de uma vida em que não vivi.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Estrelas Sorridentes

Realmente, eu não tinha nada para fazer naquela noite. Não havia nada de bom passando na TV , então decidi ir para fora admirar o crepúsculo.
Observei desde a paisagem de cores quentes ao manto noturno. A Lua me sorria com seu rosto reluzente e as estrelas com sorrisos que pareciam esconder algo.
Provavelmente, muitas pessoas já haviam se confessado para elas.
Decidi contar meus maiores segredos para as estrelas que ficaram ainda mais sorridentes.
Contei para as estrelas a vontade que tenho de ouvir suas palavras jogadas ao vento chegarem aos meus ouvidos sem qualquer obstáculo.
Contei para as estrelas a vontade que tenho de sentir seu perfume fazendo com que meu nariz seja seduzido aos seus cabelos brilhosos.
Contei para as estrelas a vontade que tenho de sentir sua pele acetinada tocar na minha sem qualquer senso de direção.
Pouco tempo depois senti o vento gelado me envolver, conseqüência de sua ausência.
Decidi voltar para meu quarto e me cobri com o cobertor, sempre pedindo para sonhar com você.