quarta-feira, 25 de junho de 2008

Julho de 1987

Era julho de 1987, alguns diziam ser somente mais uma noite de inverno na cidade, outros diziam ser o início de uma lenda.
No bairro, calçadas vazias cobertas pelo gelo que caia sutilmente na face terrestre, impedindo a passagem de qualquer pessoa. Nas ruas, somente uma imagem de solidão onde o frio ponderava a meia noite.
A cidade inteira adormecia, porém alguém resiste em manter seus olhos abertos a dura realidade. Era uma simples menina, cujos olhos negros não escondiam o medo da solidão que apontavam à janela do quarto, levemente embaçada pela geada daquela noite. Seu nariz avermelhado semelhante a uma rosa recém aberta que procurava aromas humanos, mas ninguém estava lá.
A menina se levantou e foi de encontro com um armário que porta que chorava quando aberta. Ela vestiu por cima do pijama um sobretudo preto e galochas de chuva. Foi ao encontro de qualquer pessoa.
Assim que chegou na calçada de casa, a menina vestiu a touca do sobretudo e deu passos cada vez mais largos, em direção de calor humano. No caminho, lâmpadas apagadas e árvores curvadas por conta do forte vento; um completo cenário de filme de terror.
Durante a busca, a garoa tocou gentilmente sua face solitária enquanto que suas galochas amassavam o restante da grama intacta pelo gelo.
Ela passou por uma casa onde somente uma luz predominava acesa, guiando a menina para o lugar onde ela depositava esperanças. Assim que chegou na porta, bateu palmas e acreditou que em alguns segundos alguém fosse aparecer. Somente depois a menina percebeu que a luz acesa não passava de um mero descuido.
Desiludida, a menina continuou sua jornada em direção a praça do centro da cidade, mas ao chegar a única imagem vista fora um cachorro encostado na fonte morto pelo frio cortante. Triste, a menina estava começando a perder as esperanças, quando avista de longe um homem de chapéu e casaco marrom. Ela correu em direção ao homem, agarrou sua mão e com uma pausa em sua respiração ofegante ela sorri, mas o homem não tem reação alguma. Ao olhar sua face, a menina entende que se tratava de apenas uma estátua, e nada mais.
Então, ela decide se sentar num banco com as palavras “para sempre” toscamente esculpidas e decide permanecer por algum tempo, torcendo para que alguém aparecesse antes que o frio rigoroso atacasse ainda mais sua frágil pele de cetim.
Mas ninguém apareceu.
As cores sombrias da noite cederam lugar ao sol da manhã que incentivou a volta dos cidadãos, que encontraram no banco da praça do centro da cidade a imagem de uma menina que teve esperanças, que não resistiu ao forte inverno de julho de 1987.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Sorriso de Criança

Na calçada, uma pessoa normal, já crescida e com sonhos formados.

Enquato caminhava pela calçada da cidade coberta por tristezas, ela olha para uma vitrine a sua direita e repara em algo surpreendente. Na verdade, não passava de um objeto especial embrulhado num papel vermelho brilhante, que tinha atraído toda a atenção da cidadã.

Sem pensar duas vezes, ela entra na loja e esvazia seus bolsos para levar para casa aquilo em que ela acreditava ser a melhor coisa do mundo. Ela sai da loja com o simples objeto embrulhado no papel vermelho, refletindo.

Ela decide se sentar na guia da calçada mais vazia para abrir o embrulho, ansiosa.

Seus dedos agiam com agilidade, para não perder tempo. Ela estava ficando angustiada pelo tempo de espera.

Enfim, ela abre o pequeno embrulo e o guarda no bolso, restando-lhe somente um simples pedaçinho de chocolate.

Ela o analisa e depois o coloca inteiro em sua boca faminta.

Naquele momento, seus olhos brilaram, seu coração bateu mais rápido e depois de deliciar, ela voltou a sorrir como criança, aquele sorriso de segredo bem guardado.

Depois de alguns minutos se lamentando o fim do pequeno prazer, ela volta a ser adulta.

O simples pedaço de chocolate a faz sentir nostalgia de sua infância, que ela poderia sorrir e sentir a brisa sem medo do que os outros fossem pensar dela...

O simples pedaço de chocolate fez ela voltar a sua verdadeira identidade; mas somente por alguns segundos, já que o chocolate derretera em sua boca aquecida pela vontade de sorrir.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Fantasmas Imperfeitos

Ela estava finalmente se divertindo.em algum lugar, qualquer lugar, mas com as pessoas que ela amava.
O relógio não parava e suas risadas também não. Era o dia perfeito.
Até o momento em que ela olha para o relógio e vê os ponteiros se aproximando cada vez mais da hora marcada para o fim de seus pensamentos otimistas.
Ela se despediu dos amigos e retornou sozinha para aquela casa em que ela somente enxerga sentimentos sombrios misturados com a dor do descaso.
Ela andava pela calçada com passos cada vez mais largos. O dia passou a ser noite.
Ela ouviu passos que seguiam seus pés errôneos e sentiu medo começando a andar ainda mais rápido.Mas aqueles passos pareciam procurá-la.
Ela se virou e viu aqueles fantasmas do passado que a lembravam dos tempos tristes, dos sorrisos controversos e das lágrimas velozes.
Ela sentiu uma brisa noturna tocar gentilmente sua face marcada pelas lágrimas. Ela tentou correr, mas os fantasmas eram mais rápidos.
Enfim, ela chegou em sua casa e assim que abriu a porta viu aqueles olhos odiosos que procuravam algum argumento para acusá-la de algo onde era inocente.
Eles a acusaram de ser diferente e não ter seguido as condições propostas pela sociedade preconceituosa. Ela começou a se lamentar por não ser perfeita, mas foi em vão a justificativa de que a perfeição não existe.A perfeição não passa de um quadro abstrato que nem todos gostam, mas mesmo assim o seguem, interpretando-o cada mente de uma forma diferente.
Ela sentiu na carne a dor da injustiça e subiu ao seu quarto, em busca de pensamentos que pudessem confortá-la, já que não havia ninguém para falar com ela, a não ser aqueles fantasmas imperfeitos.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Lírios na Janela

Ela se cansou da vida, das pessoas, de tudo.
Ela decidiu fazer algumas coisas diferentes. Aquelas coisas que ela sempre quis fazer, mas faltou-lhe coragem.
Ela foi até o jardim de sua casa e colheu os mais belos lírios brancos que pôde ver.
Colocou-os no mais belo vaso de cristal e deixou os lírios de repouso na janela que tinha a vista para a rua.
Ela comprou pequenas velas brancas, acendeu-as e colocou-as na escada, a mesma que ela superou degrau por degrau, e mesma que tinha como destino seu fim.
Ela comprou uma pequena caixinha de madeira e guardou dentro dela as fotos do dia em que ela acreditou ser o melhor de sua vida, com aqueles sorrisos impressos no papel que será devorado pelo esquecimento e pelas traças.Ela colocou cuidadosamente a caixinha na janela, ao lado dos lírios brancos de pureza.
Ela comprou a roupa que tanto desejava e vestiu a peça assim que chegou em sua casa.Ela tirou seus sapatos que protegiam seus pequenos pés delicados e andou descalça pela calçada em direção à rua para tentar ver onde a mesma terminava.Lá ficou ela, por alguns minutos refletindo se continuaria a executar seu plano. A resposta foi sim.
Ela entrou dentro de sua casa, arrancou uma folha de um caderno qualquer e começou a escrever com a caneta azul marinho, tão azul quanto o céu que a esperava. Ela preencheu as linhas do papel com seus sentimentos, justificativas e dores.
Ela fez um envelope retangular para guardar seu simples poema dentro. Colocou-o na janela, ao lado dos lírios.
Ela sentou-se no chão do banheiro e começou a planejar seu plano de fuga mais coerente com seus sentimentos. Decidida, ela retornou a janela com os lírios brancos e começou a chorar lágrimas de despedida e soluços de desejos de uma boa viajem.
Ouviu-se um estrondo.
Ela disse adeus.

Amor Verdadeiro

Perdendo o tempo de minha vida em lugares costumeiros e domados pela rotina, que pude ver meu mundo desmoronar.

Vi risos irônicos apontados para mim, palavras ofensivas pronunciadas pelas bocas dos insensíveis ...Senti aquela enorme solidão que me ataca quando estou ainda mais triste.

Andando na calçada com somente a companhia de meus passos, me perdi num mundo que nunca quis ver, mas naquele dia senti meu coração chorar.

Olhares odiosos me olhavam enquanto eu andava com os passos mais largos que eu consiguia, mas aqueles olhos cheios de ódio voltaram para me assombrar.

Senti o vento bater em minha face e bagunçar meu cabelo. O vento sussurou palavras de dor em meus ouvidos e me fez ter um arrepio de medo. A cor do céu passou das cores alegres e tropicais para aquele azul marinho de solidão, onde as gotas de lágrimas cairam sobre mim, chegando ao ponto de criar pequenas poças na calçada que me faziam enxergar minha face marcada pelas lágrimas negras.

Tudo estava trsite, tudo estava ruim.

Enfim chego em casa. Abrindo o portão, vejo uma bola de pêlos negra levemente manchada de castanho escuro. Aquela coisa me olhou como se eu fosse um deus, sem se importar com minha raça ou estilo. Me senti amada.

Cheguei mais perto, ela pulou sobre meus joelhos e começou a grunir de felicidade.

Ela me fez esquecer de tudo o que me deixava triste apenas me dando um pouco de carinho.Ela não se importa com minha vida financeira, meu cabelo, meus gostos...Ela simplesmente me ama.

Daquele dia em diante, todas as vezes em que eu atrevesso o portão de minha casa e me deparo com aquela bola de pêlos, esqueço dos sentimentos ruins e tenho um dos poucos sorrisos da minha vida.

Mesmo sem poder dizer uma palavra sequer, sinto que ela me ama, e somente com ela aprendi a dizer as mais belas palavras do mundo "Eu te amo".



Essa bola de pêlos se chama Nicoli e me faz sorrir todos os dias, a dez anos...

quinta-feira, 12 de junho de 2008

O Artista Triste

No papel a sutileza da grafite da a luz a uma criatura cada vez menos convencional.
A borracha é passada varias vezes, buscando sempre a maior perfeição da obra. Aquela mesma borracha que esconde as imperfeições da grafite mal guiada.
A régua que guia a grafite para os lugares mais certos; tão certos como o sol que nascerá ao amanhecer.
O papel vai ficando cada vez mais marcado com a identidade do artista triste. Até que nem mesmo a borracha esconde os traços mal feitos, agora permanentes.
O rascunho deixa de ser um simples papel usado e passa a ser o inicio de uma metamorfose que ocorrera em função da criatividade com a emoção.
A tinta começa a ser pingada gentilmente com o pincel fino , criando cores eufóricas no desenho antes sem cor. O desenho vai ficando cada vez mais falso em relação ao sentimento, mas cada vez mais verdadeiro em relação à realidade.
Gotas de lágrimas mancham o papel, causando mescla de cores que muitos acreditavam incombináveis, mas hoje uma verdadeira obra de arte. Do ponto de vista externo, uma simples paisagem, mas no interno a sinjela personificação do sentimento.
Depois de horas criando a obra, o artista sente que entre os dedos a dor culmina. O excesso de trabalho e a pequena dor não o fazem parar, ele precisa chegar ao grande final, aquele que ninguém nunca esquecerá. Gotas de sangue empoçam em seus calos doloridos.
Sua mente não pára. Seu coração também não.
Enfim a arte fica pronta. O artista a coloca gentilmente na janela para que a água do guache evapore junto com suas lágrimas que fizeram o papel manchar.
Depois de seca, o artista decide pendurá-la na parede, para que todas as vezes que ele ficar triste poderá olhar para a parede e ver que seu quadro está lá, fazendo-o lembrar daqueles dias tristes.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Aquele Sorriso

Aquele sorriso que procuro dentro da imensa escuridão de meus pensamentos, aquele sorriso que procuro dentro de mim. Mas ele não está lá... Talvez eu deva procurar melhor.

Aquele sorriso que me faz pensar todas as noites antes de dormir, aquele sorriso que me faria mais feliz. Aquele sorriso que me faria esqueçer daqueles tempos sombrios, onde as dores se refugiavam em meu coração.

Aquele sorriso que muitas vezes achei que não existia.

Aquele sorriso que me faz falta todas as manhãs, me fazendo esquecer dos meus pesadelos da noite.

Aquele sorriso que me faz sonhar com a hisória perfeita, um verdadeiro conto de fadas.

Aquele sorriso que desejei que fosse seu, mas não era... Vou continuar procurando.

Aquele sorriso que se perdeu em qualquer esquina, em qualquer bar.

Aquele sorriso que muitas vezes procurei nos lugares errados, trazendo-me somente mais ilusões.

Aquele sorriso que eu encontrarei pela rua, esperando por mim...

Aquele sorriso que pela falta, me fez derramar muitas lágrimas salgadas...

Aquele sorriso que um dia deixará de sorrir e dirá: " Eu te amo".

segunda-feira, 2 de junho de 2008

A Lua Amante

Ela decidiu dar uma volta pelo centro da cidade.

Era de noite, e a lua estava lá, olhando por ela. Cada vez que a avistava, uma emoção diferente. Seus olhos pareciam não querer enxergar outra realidade a não ser a menina. A lua havia se apaixonado.

Era um amor impossível, e por isso a lua se entristecia a cada vez que o sol fosse embora.

A menina, por muitas vezes desejou que a lua sumisse, ela achava que era um amor tolo, sem qualquer chance de futuro. Mas a lua continuava lá.

Um dia, ela decidiui dar uma volta até o centro da cidade, ela olhava para o céu na tentativa de ver as estrelas, mas... Algo estava faltando...Onde está a lua?

A menina , no momento, sentiu-se aliviada. "Agora posso seguir minha vida em paz"-pensava.

Passavam-se os dias , mas a falta persistia em ficar.

Ao deitar-se em sua cama, a mesma começou a formular respostas coerentes, mas só conseguia chegar a mais perguntas." Como pôde?"- ela se perguntava.

Até que a menina adormeceu.

Os dias se passavam e a pergunta predominava na cabeça da pequena.

Ao andar novamente pelo centro da cidade e menina sentiu imensa falta da lua, aquela mesmo que muitas vezes ela desprezou e julgou ser somente um parasita do planeta. Aquela mesma que ela odiou todas as vezes em que o sol ia embora. Aquela mesma que ela desejou que nunca existisse.

A menina, hoje crescida e conformada, aprendeu uma grandiosa lição: Valorizar a tudo e a todos.

Mas a dúvida ainda predomina: Onde foi parar a lua?

" Não sei, mas onde quer que ela esteja, vou esperá-la aqui, onde muitas vezes ela me esperou".