terça-feira, 22 de julho de 2008

Flores Mortas

Andei por entre quartos escuros, quartos que se escondiam do mundo real, quartos por onde não se ouviam muitos passos.
Lentamente, me aproximei do interruptor para que me fornecessem luz. A escuridão se fora, deixando para trás uma imagem deplorável. Um quarto que antes fora o mais resplandecente cômodo da moradia, hoje não passara de um simples porão soterrado por lembranças.
Pelo chão, flores em vasos decorados pelas teias de aranhas e vestidos num manto de pó. Flores podres mal cheirosas que antes foram a mais apreciada decoração da casa. Flores que antes custavam uma fortuna, hoje não passam de restos mortais de uma beleza vivida num jarro de porcelana.
O quarto tinha cheiro de passado, onde lembranças de outras vidas possuíram minha mente, fazendo-me sentir calafrios onde minha espinha tremia e gemiam meus dedos de frio.
Levei minha mão de encontro com a maçaneta e fechei aquela porta que chorou com o adeus ás lembranças de uma vida em que não vivi.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Estrelas Sorridentes

Realmente, eu não tinha nada para fazer naquela noite. Não havia nada de bom passando na TV , então decidi ir para fora admirar o crepúsculo.
Observei desde a paisagem de cores quentes ao manto noturno. A Lua me sorria com seu rosto reluzente e as estrelas com sorrisos que pareciam esconder algo.
Provavelmente, muitas pessoas já haviam se confessado para elas.
Decidi contar meus maiores segredos para as estrelas que ficaram ainda mais sorridentes.
Contei para as estrelas a vontade que tenho de ouvir suas palavras jogadas ao vento chegarem aos meus ouvidos sem qualquer obstáculo.
Contei para as estrelas a vontade que tenho de sentir seu perfume fazendo com que meu nariz seja seduzido aos seus cabelos brilhosos.
Contei para as estrelas a vontade que tenho de sentir sua pele acetinada tocar na minha sem qualquer senso de direção.
Pouco tempo depois senti o vento gelado me envolver, conseqüência de sua ausência.
Decidi voltar para meu quarto e me cobri com o cobertor, sempre pedindo para sonhar com você.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

A Alma Melódica


Sou somente mais uma alma predestinada a luz que não encontrei. A minha vista, uma garota que ao entrar em seu carro, ligou o rádio numa musica bem alta.
Não sei o nome dela, mas achei impressionante. Morri já com idade avançada e a música me trouxe sentimentos passados.
No início da música, uma melodia calma e tranqüila, que me lembrou de quando eu era somente um bebê, sem qualquer preocupação, a não ser crescer.
Alguns segundos bastaram para uma voz suave soltar palavras belas, lembrando-me da minha infância, cuja preocupação fora somente ser feliz e crescer , assim como a música que ganhava cada vez mais velocidade.
Logo, veio o refrão, que me fez refletir sobre o que aconteceu na minha adolescência. Uma mistura de confusão e descobertas, cujo resultado foi uma tristeza que consegui superar.
Alguns minutos e a voz se calou e cedeu espaço a notas musicais aceleradas e misteriosas, assim como foi minha fase adulta, onde eu me calei e dei voz as minhas obrigações e me esqueci de quem realmente era.
Até que a voz retorna e a melodia se acalma, como fora minha velhice, onde me arrependi do que não fiz.
Enfim, a música se acaba, como foi minha morte.
Sou somente uma alma triste e tola, mas encontrei um sorriso naquelas notas musicais.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Quem Dera Eu Fosse a Lua

Esta noite, na hora de dormir, decidi abrir a janela para sentir o aroma da lua.

Fiquei admirando-a durante horas, mas não percebi que o relógio continuava com sua velocidade, trazendo juntamente com o tempo, o sono.

Acabei adormecendo sobre a cama desarrumada, mas mesmo dormindo, sentia o aroma da lua vir por entre minhas entranhas e acomodar-se dentro de mim.

No momento, senti como se eu fizesse parte da lua, como se eu fosse a própria. Me senti amada e admirada pelos olhos apaixonados de toda a redondeza.

Bastou abrir meus olhos, para descobrir que tudo não se passara de um sonho. Bastou fechar meus olhos para sentir o calor do sol aquecer minha face de pele de cetim.

Bastaram as lágrimas para perceber que eu sou algo que não pude escolher e que não gosto.

Bastou enxugá-las para descobrir que posso ser quem eu quiser, só depende de mim.


segunda-feira, 7 de julho de 2008

Tênis Sujo

Eu estava aflita e decidi dar uma volta na praça.
Já era fim de tarde e meu corpo pedia descanso. Deitei minhas costas na grama para admirar o céu que se tornava cada vez mais escuro.
Lindo céu com estrelas falsas,linda paisagem em que não acreditei.
Pedi para a lua me banhar de ternura, ninando-me com sua luz clara e fazendo-me sonhar com dias perfeitos.
A noite cai e a autoridade do sol dá o ar de sua graça e os raios tímidos fazem meus olhos se abrirem.
E me pego deitada na grama macia, numa linda manhã de outono. Levantei-me e visti meu tênis sujo de barro.



quarta-feira, 2 de julho de 2008

Quatro Estações



Era somente mais uma manhã de outono, ela se cansou de ficar em casa. Na rua, ela presenciou a queda das folhas cairem sutilmente no chão coberto pela geada da madrugada.
Andando com passos tímidos, ela estava tão feliz que andava na tentativa de provar para todo mundo que não precisava provar nada para ninguém.
Ela fez questão de esquecer as dores do passado e conformou-se que não era mais criança. Ela somente queria andar na estrada do destino, e quase sem querer encontrar seus verdadeiros objetivos.
Com palavras repetidas ela pediu desculpas e foi embora, deixando seus sonhos de criança para trás.Com a face pálida por conta do frio, ela chorava por sentimentos passados, sabendo que tinha visto coisas que não queria ver.
Ela se lembrou das fantasias que tinha quando era somente uma criança sem sonhos formados.
As perguntas se afundavam em respostas, afundando-a de longe.
Os meses foram passando depressa, e com eles a mudança de estações.
Ela viu os botões de rosa se abrirem com o perfume da manhã, com os raios solares abraçarem-na gentilmente. Ela viu a grama crescer em direção ao sol.
Ela ouviu a lua dizendo-lhe para esperá-la dormir, e somente depois ir embora. Ela viu as estrelas sendo ofuscadas pela luz do sol, sumindo uma a uma.
Ela saboreou das gotas da garoa que caia nos fins de tardes de verão.
Ela viu que o céu é maior, fazendo-a chegar a algum lugar deserto. Sua única companhia era o destino.
Ela, que não se acalmava, desaconselhou a chuva a cair em sua face triste, dizendo-a para cair nas suas costas enquanto ela dorme na grama do jardim de solidão.
Ela descobriu as nascentes que brotavam das curvas das montanhas com picos cobertos por flocos espessos de neve.
Ela estava cada vez mais perto de sua lucidez e cada vez mais longe de seus sonhos. Ela acreditou na existência daquele sentimento secular chamado amor.
Ao descobrir que nada mais existia, ela também descobriu que seu caminho não tinha volta.
Ela fora obrigada a viver a dura realidade.
Ela, que não se acalmava, desaconselhou a chuva a cair em sua face triste, dizendo-a para cair nas suas costas enquanto ela dorme na grama do jardim de solidão. Ao acordar, ela decidiu voltar para casa e sair somente quando o próximo outono chegasse.